Como parte da agenda de conteúdo de ThinkFuture, este artigo propõe uma análise aprofundada sobre os avanços e os desafios da presença feminina na tecnologia e no direito, a partir de dados, referências históricas e experiências institucionais de TozziniFreire.
Mulheres na tecnologia: avanços reais, desafios persistentes
A história da tecnologia é, antes de tudo, uma história de contribuições extraordinárias que merecem ser plenamente reconhecidas. Mulheres escreveram o primeiro algoritmo, criaram o primeiro compilador e desenvolveram o protocolo que viabilizou a internet, moldando de forma decisiva os alicerces da era digital. No campo jurídico, essa trajetória de protagonismo se repete com igual vigor. Da litigância estratégica ao direito corporativo, as mulheres conquistaram a paridade numérica na base da profissão e hoje avançam rumo a uma presença cada vez mais expressiva nos espaços de decisão, como as sociedades dos grandes escritórios, os tribunais superiores e os comitês de governança.
Compreender essas duas trajetórias em conjunto, a da tecnologia e a do direito, revela um padrão inspirador de competência e resiliência, evidenciando que o talento feminino sempre esteve presente e que o caminho percorrido até aqui pavimenta transformações ainda maiores. As páginas a seguir percorrem esse caminho, das pioneiras que moldaram a computação moderna aos dados que mapeiam os avanços e os desafios ainda existentes, passando por iniciativas concretas que demonstram como a liderança feminina transforma instituições por dentro.
Pioneiras da computação: as mulheres que moldaram o futuro digital
Em 1843, a matemática Ada Lovelace produziu o que hoje reconhecemos como o primeiro algoritmo da história[1]. Ao analisar a Máquina Analítica de Charles Babbage, ela previu que o dispositivo poderia ir além de simples cálculos, sendo capaz de compor música e processar linguagem. Sua visão se provou correta, antecipando em um século a invenção do primeiro computador eletrônico.
Grace Hopper, matemática e almirante da Marinha dos Estados Unidos, desenvolveu o primeiro compilador em 1952 – um programa que traduzia instruções em linguagem humana para código de máquina e foi força central na criação do COBOL, primeira linguagem de programação de alto nível amplamente adotada no mundo comercial[2]. Sua convicção de que os computadores deveriam ser acessíveis a pessoas sem formação técnica abriu caminho para que a programação deixasse de ser um domínio restrito a especialistas. Hopper seguiu em atividade até os 79 anos e, ao ser questionada sobre por que continuava trabalhando, respondeu com a frase que resumia sua visão: “As coisas mais prejudiciais que você pode dizer são ‘sempre fizemos assim’.”
Radia Perlman, desenvolveu o Spanning Tree Protocol, algoritmo que resolveu um dos problemas fundamentais das redes de computadores ao evitar loops infinitos de dados e tornar possível a internet em escala global[3]. Detentora de mais de 100 patentes e integrante do Internet Hall of Fame desde 2014, ela rejeita com precisão o título de “mãe da internet”, argumentando que grandes invenções são sempre coletivas. A ressalva, no entanto, não diminui o peso da contribuição: sem o protocolo que ela criou, as redes que sustentam a comunicação digital hoje simplesmente não funcionariam.
Ada, Grace e Radia são apenas três nomes numa longa lista que a história demorou a reconhecer. Suas contribuições, que não foram periféricas, estão na base da computação moderna. O reconhecimento das mulheres na ciência e na tecnologia, no entanto, seguiu em ritmo significativamente mais lento do que suas realizações, e a luta por condições mais igualitárias tem sido um processo coletivo e gradual.
Da luta por direitos ao viés invisível: as raízes estruturais da desigualdade
A origem do Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, reflete essa trajetória. A data tem origens controversas[4], mas uma das versões mais conhecidas remete a 1917, quando cerca de 90 mil operárias têxteis russas saíram às ruas para protestar contra as péssimas condições de trabalho e a participação do país na Primeira Guerra Mundial. Antes disso, em 1908, Nova York já havia sido palco de uma marcha que reuniu 15 mil mulheres reivindicando jornadas de trabalho mais curtas, aumento salarial e direito ao voto. Em 1975, a ONU instituiu oficialmente o 8 de março como o Dia Internacional da Mulher.
Os legados históricos, no entanto, contrastam com a desigualdade de gênero que ainda permeia em nossa sociedade. Um estudo longitudinal americano, iniciado em 1998, revelou que professores tendiam a subestimar as habilidades matemáticas de meninas, mesmo quando equivalentes às dos meninos. Essa análise, publicada em 2016 na revista AERA Open[5], confirmou que o mesmo padrão se repetia em um segundo grupo de alunos, iniciado em 2010.
As crianças acompanhadas pelo primeiro grupo do estudo, iniciada em 1998, têm hoje entre 30 e 35 anos, ou seja, já são adultas plenamente inseridas no mercado de trabalho, ocupando as mais diversas funções e cargos. O viés que marcou sua formação escolar não se apaga automaticamente com o tempo, pelo contrário, foi transmitido. Em 2023, um estudo do International Journal of STEM Education[6] com 458 professores de matemática nos EUA confirmou que aqueles que acreditavam que a igualdade de gênero já havia sido alcançada eram os mais propensos a avaliar a capacidade das alunas de forma inferior, reforçando que o preconceito mais difícil de combater é aquele que não se reconhece.
Excelência sem reconhecimento: mulheres e os limites do mérito científico
Esse padrão de invisibilidade se reflete até no reconhecimento máximo que a ciência pode oferecer. Desde sua primeira edição, em 1901, o Prêmio Nobel laureou apenas 65 mulheres, frente a 908 homens. Nos campos científicos de Física, Química e Medicina, apenas 25 mulheres foram reconhecidas em mais de um século de premiações, representando 3,9% do total. A Física registra o índice mais baixo: somente cinco mulheres entre 219 laureados.
O histórico da renomada premiação internacional é marcado por grandes intermitências e casos de exclusão deliberada — Jocelyn Bell identificou os primeiros pulsares, mas o Nobel de 1974 foi ao seu orientador; Rosalind Franklin teve papel central na descoberta da dupla hélice do DNA, mas três colegas homens levaram a premiação em 1962; Lise Meitner recebeu 48 indicações entre 1901 e 1965 e jamais foi premiada. “Não é que as mulheres não estivessem lá. Elas contribuíam com estudos relevantes, mas isso não era reconhecido”, resume a física Ana Mizher, do Instituto de Física Teórica da Unesp[7].
O cenário atual da liderança feminina em tecnologia e STEM
No cenário atual, os dados dos principais relatórios globais sobre liderança em tecnologia revelam um avanço lento e, em alguns aspectos, estagnado. O Nash Squared Digital Leadership Report de 2025 aponta que apenas 23% das equipes de tecnologia são compostas por mulheres, percentual idêntico ao de dois anos atrás[8]. Na liderança, a situação regrediu: a participação feminina caiu de 14% para 13% em relação ao relatório anterior. A Accenture reforça o diagnóstico: pesquisas da consultoria indicam que uma cultura organizacional inclusiva é fator determinante para a retenção de mulheres em funções técnicas e que, sem ela, o crescimento dos números tende a estagnar ou retroceder[9].
A UNESCO reforça esse panorama[10], indicando que apenas 33,3% dos pesquisadores no mundo são mulheres, e destas, somente 35% atuam nas áreas STEM (Science, Technology, Engineering and Mathematics). No Brasil, o primeiro Censo de Diversidade do setor de TIC[11] (Tecnologia da Informação e Comunicação) revela que apenas 34,2% dos profissionais de tecnologia são mulheres, e o IBGE complementa que elas ocupam 29,7% dos cargos gerenciais no setor de Informação e Comunicação[12].
Essa disparidade é preocupante, pois as carreiras em STEM são consideradas os empregos do futuro, essenciais para a inovação e o desenvolvimento. Nesse sentido, a UNESCO estima que, até 2050, 75% dos empregos estarão relacionados a este campo, tornando a inclusão feminina não apenas uma questão de justiça, mas uma necessidade estratégica[13].
Apesar do enorme desafio, há sinais de avanço. Um estudo da Serasa Experian de 2025 mostrou um crescimento de 4,6% no número de mulheres na área de tecnologia em apenas um ano[14]. A Brasscom também confirma que, nos últimos três anos, a presença feminina cresceu 1,5 ponto percentual acima da masculina, com destaque para funções técnicas de TI, P&D e Engenharia, onde o crescimento feminino chegou a 2,1%, contra 1,3% dos homens. Para que esse crescimento se sustente e se amplifique, é preciso não apenas identificar onde o caminho se estreita, mas também celebrar e replicar modelos de sucesso.
O funil da liderança feminina no mercado jurídico brasileiro
O mercado jurídico brasileiro é um exemplo concreto de como a paridade numérica na base não se traduz em equilíbrio nos cargos de liderança. As mulheres representam 50,4% do total de advogados no país e são maioria em 19 das 27 seccionais estaduais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), conforme o 1º Estudo Demográfico da Advocacia Brasileira (Perfil ADV), realizado pela Fundação Getulio Vargas (FGV).
Contudo, o relatório da International Bar Association (IBA) realizado em 2024, com foco no Brasil, confirma o padrão de que a representatividade feminina diminui em níveis de senioridade: a proporção de mulheres na profissão jurídica cai sete pontos percentuais em relação ao quadro geral, de 44% para 37% em cargos de liderança[15]. Além disso, apenas 21% dos profissionais seniores no Poder Judiciário são mulheres, sendo este o setor com a menor representatividade feminina em níveis de senioridade entre todos os analisados no estudo.
Inovação jurídica impulsionada por lideranças femininas: a prática de TozziniFreire
Em TozziniFreire, a compreensão sobre a importância da representatividade e o investimento contínuo em lideranças femininas são elementos que moldam a atuação do escritório em diversas frentes. Na área de Tech, PI e Privacy, composta exclusivamente, por sócias, essa visão se traduz em uma prática estratégica e abrangente, reconhecida pelas principais publicações jurídicas internacionais nos âmbitos consultivo, transacional e contencioso. O respaldo de guias como Chambers Brazil, Chambers Global, The Legal 500, Latin Lawyer 250, Global Data Review e World Trademark Review 1000 reflete a solidez dessa trajetória ao longo dos anos.
Essa mesma presença feminina é central na condução da inovação institucional. Por meio do programa ThinkFuture e do Comitê de Assessoramento à Inovação (CAI), que é composto majoritariamente por mulheres, elas ocupam papéis decisivos na definição de prioridades, investimentos e na adoção de novas tecnologias. Um exemplo desse protagonismo foi a supervisão do TF/AILA, plataforma de inteligência artificial integrada à tecnologia da OpenAI desde 2023, iniciativa que reforça a posição de vanguarda do escritório na inovação jurídica. Conduzida por sócias no âmbito do Comitê Executivo, a implementação do projeto exemplifica uma cultura onde inovação e liderança feminina se fortalecem mutuamente, de forma consistente e integrada à identidade do escritório. Esse panorama demonstra que a presença de mulheres em cargos de liderança tem um efeito que vai além do simbólico.
Quando jovens profissionais encontram, nas posições de referência ao seu redor, pessoas que compartilham trajetórias semelhantes às suas, a percepção sobre o que é possível se transforma. Não apenas por inspiração, mas, sobretudo, por evidências. Ambientes com maior diversidade de liderança tendem a produzir políticas mais atentas às condições reais de seus colaboradores e são justamente essas condições que, como os dados mostram, ainda influenciam de forma determinante as trajetórias profissionais femininas.
A jornada pela equidade de gênero em tecnologia, iniciada com a visão pioneira de Ada Lovelace, exige um compromisso contínuo com a mitigação de vieses discriminatórios e o fomento ativo do protagonismo feminino. É fundamental que a educação, desde suas bases, promova um ambiente inclusivo que celebre o potencial de todas as mentes, independentemente do gênero.
Além disso, o papel desempenhado pelo setor jurídico nessa transformação é de extrema importância. Isto porque, políticas e práticas legais que assegurem a equidade de gênero são essenciais para garantir que a representatividade feminina alcance também as posições de liderança. Investindo em estruturas de liderança que empoderem mulheres, tanto na tecnologia, quanto no direito, garantimos justiça social e impulsionamos a inovação e a excelência técnica e jurídica, construindo um futuro mais equitativo para todos.
Autora: Ana Beatriz Oliveira Costa – ThinkFuture
Referências:
[1] https://codificadas.ime.usp.br/quem-foi-ada-lovelace-conheca-a-importancia-de-seus-principais-feitos
[2] https://jornal.usp.br/universidade/acoes-para-comunidade/alunas-da-usp-inspiram-garotas-a-seguir-carreira-em-computacao/
[3] https://lemelson.mit.edu/resources/radia-perlman
[4] https://jornal.usp.br/artigos/dia-internacional-da-mulher-um-dia-para-comemorar-as-conquista-alcancadas-sem-se-esquecer-das-lutas-que-ainda-estao-por-vir/
[5] https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/2332858416673617
[6] https://link.springer.com/article/10.1186/s40594-023-00420-z
[7] https://jornal.unesp.br/2025/03/07/numero-pequeno-de-mulheres-entre-os-agraciados-com-o-nobel-nas-areas-de-ciencias-e-indicativo-dos-muitos-obstaculos-que-elas-ainda-enfrentam-em-suas-trajetorias-academicas/
[8] https://www.nashsquared.com/dlr-2025/dlr-2025
[9] https://www.accenture.com/ie-en/about/inclusion-diversity-index
[10] https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000377433
[11] https://brasscom.org.br/brasscom-lanca-primeiro-censo-de-diversidade-do-setor-de-tecnologia-da-informacao-e-comunicacao-tic
[12] https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/trabalho/9171-pesquisa-nacional-por-amostra-de-domicilios-continua-mensal.html
[13] https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000379707
[14] https://www.serasaexperian.com.br/sala-de-imprensa/rh/numero-de-mulheres-em-ti-cresce-46-em-um-ano-revela-serasa-experian
[15] https://www.ibanet.org/Brazil-New-IBA-report-shows-women-underrepresented-at-senior-levels-across-all-sectors-of-the-law